O Sonho
Contando segundos e estrelas
Dorme como uma fada
Veste seu corpo do mais puro tecido
Abre os olhos no primeiro minuto da luz
Não pode perder o tempo correr
Não quer perder de ver a última estrela dormir
Mas dormiu antes de acordar
Enquanto as pálpebras estavam pesadas
Teve sonhos
Sonhou com um dia de céu verde
E árvores azuis
Sonhou com o orvalho castanho
Sonhou com borboletas a atacando
Sem chance de vencer
Acordou sem sentir suas pernas
Despertou pro dia comum
E perdeu o deitar da lua
Despertou com o brilho do sol
Maltratando sua retina
Nenhuma nuvem a salvá-la
Guardava no peito o que só seu coração suportara.
Canta versos estranhos
Navega sem um barco pelo rio
E não faz diferença
Pois chegará ao mesmo ponto de onde saiu.
Em alguns segundos
Sem sentir seu corpo foi devorado
Pelas formigas que dormiam junto
Ao seu belo e leve corpo
Não há porque voltar
Decidiu fechar os olhos e esperar
A primeira estrela acordar
Para então voltar a sonhar.
E sonhou ser uma princesa
No meio do deserto
E viu seu castelo como resto
De glória, de vida
Em um segundo as formigas transformaram-se
Em grãos de areia que sujam sua pele
Não restava nada se não deitar
E esperar a sede matar
Ao cair sentiu seu joelho bater forte
E não doer, talvez não doesse a morte também
Fechou os olhos e despertou
Sentindo pingos de chuva em sua face
Apenas abre a boca e bebe tudo o que der
Não morrerá mais de sede
E também não está mais no deserto
Está no meio de uma chuva que não é chuva
E ao seu redor ao longe vê luzes de postes
De cidade
Não vê as estrelas e nem sente o sol
É madrugada
O silêncio do deserto se transformou em gritos
Mas seu corpo ainda é
Apenas ilusão
Instrumento velho usado e jogado fora
Não é mais parte daquilo
Não é mais fada, nem bela
É estúpida velha a morrer no meio da rua.
Entre presente, passado e futuro
Perdeu-se
Entre sonho, imaginação e delírio
Perdeu-se ao tentar lembrar o que era real
E já nem fazia diferença
Já não estava mais aqui
Voou, agora sim,
Como uma fada
E sonhou como nunca antes
Flutuou sob as estrelas.
Aquele corpo gasto já não era mais seu
Agora era mais que antes
Era o universo todo
Era tudo o que existia
E não mais limite físico
Marcela Reinhardt
Pelotas, 3 de junho de 2008.

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